02 julho, 2010

O nascimento de Leah

Quando grávida eu pensava: com 38 semanas, o quarto e as roupinhas vão estar arrumados, a mala pronta pro hospital e vou estar sempre depilada, com unhas e cabelo feitos pra não estar um horror no dia do nascimento da minha boneca. Estaria com tudo prontinho e bonitinho só aguardando entrar em trabalho de parto, e aí quando estivesse com contrações de 5 em 5 minutos, pegava a mala e ia pro hospital. Fácil assim.

Eu estava me sentindo ótima, tanto que nem parecia que estava na reta final da gestação. Ouvi muito que é comum o primeiro bebê passar da data prevista, e como eu não sentia nada que indicasse que o grande dia estava chegando, acreditava que Leah iria passar das 40 semanas. E lá estava eu com 38 semanas e meia e não tinha tudo prontinho e bonitinho como eu imaginava. 

Quando acordei na quarta-feira, dia 30 de junho, com 38 semanas e 5 dias, fui ao banheiro e vi que eu tinha um corrimento. Só podia ser o tampão saindo. Fiquei tão feliz com o primeiro sinal de trabalho de parto. Resolvi passar e guardar todas as roupas de Leah que haviam sido lavadas mas estavam ainda dentro do berço. Durante todo o dia senti cólicas fracas, tão fracas que às vezes eu ficava na dúvida se tava mesmo sentindo alguma coisa. Alex estava de folga e me lembro de estar na frente da nossa casa ajudando ele a cortar a grama e falando com uma vizinha que veio dar um oi: “Estou de quase 39 semanas!”. Na verdade eu devia ter dito: “Estou quase parindo!”, mas eu não sabia que aquela cócega no pé da barriga eram contrações.

Durante a noite as “cócegas” foram virando “cólicas”, não doía tanto, mas também não me deixava dormir. Esperei até as 5 da manhã pra acordar Alex. Ele só iria trabalhar de meio dia. Quando vinha uma contração ele marcava e balançava abraçado comigo até passar. As contrações estavam regulares, mas a dor era totalmente suportável, eu disse que ele podia ir trabalhar que ainda não tava na hora de ir pro hospital. Na manhã seguinte eu tinha consulta e aí poderíamos checar como as coisas estavam indo.

Ainda achando que podia ser um alarme falso resolvi me preparar, e com contrações de 7 em 7 minutos eu arrumei a mala, fiz depilação, cabelo e unhas. Alex ligava o tempo todo pra saber como eu estava e perguntar se eu não queria ir pro hospital. Eu estava esperando sentir aquela dor insuportável. Até então as contrações estavam frequentes e reguladas mas também  suportáveis. Eu não queria ir pro hospital pra que as enfermeiras achassem que eu era uma grávida-de-primeira-viagem-frescurenta e me mandassem de volta pra casa e esperar mais.

Preocupado, Alex já tinha ligado pro hospital e uma enfermeira sugeriu que eu tomasse um banho quente pra ver se as contrações paravam. Decidi que ia tomar o banho e se as contrações continuassem eu iria pro hospital. Nessa hora, já no final da tarde, minha sogra chegou pra ver como eu estava. Quando fui pro banheiro ela ligou pra Alex, disse que eu estava com a cara pálida e que deveria ir pro hospital. Ele veio pra casa voando, nem deu tempo deu sair do banheiro direito e ele já estava em casa. As contrações não pararam.

Chegamos no hospital por volta das 6:30 pm (quinta-feira, 01 de julho). Diagnóstico: perda de líquido amniótico, 4 cm de dilatação. E a enfermeira afirmando: “Você não sai daqui sem seu bebê nos braços!”. Alegria pura! Logo iríamos ver o rostinho da nossa tão esperada Leah. 

Eu sabia que quando a bolsa estoura pode sair o líquido todo de uma vez numa enxurrada ou aos poucos, mas eu não sabia que podia ser aos pinguinhos... minha bolsa havia rompido e eu nem sabia!

Usei o skype pra ligar pra minha mãe, tiramos fotos. Foi tudo tranquilo na primeira hora no hospital.

Quando vinha uma contração eu respirava fundo e Alex fazia massagem nas minhas costas. Era só nós dois ali, nosso momento, nosso parto. Exceto pela enfermeira que ficava entrando pra me mandar deitar e botar os monitores e tirar pressão. 

Os monitores na barriga, um para as contrações e outro para os batimentos cardíacos do bebê, me incomodavam demais. Coçava muito minha barriga. Eu ia muito ao banheiro e toda vez tinha que tirar os fios da máquina e ia com os monitores pendurados na barriga e arrastando um monte de fios comigo. Minha vontade era de arrancar tudo e jogar bem longe. Cadê a liberdade de movimentos, cadê as alternativas não farmacológicas de alívio da dor que o hospital fez uma propaganda tão bonita nas aulas pré-natais e que me deixaram tão animadas para esse momento? Fiquei desapontada.  

O tempo foi passando e a dor aumentando com ele. Perdi a noção do tempo e não sei em que ponto a dor ficou realmente intensa. Minha memória desse momento é turva, como se faltasse uma parte. Só lembro que doía muito. A grávida que há pouco tempo curtia cada contração, agora gemia alto e enchia o saco do marido falando que queria que aquilo acabasse, que queria ir pra casa. Como se fosse possível botar um final em tudo. A vontade era de se esconder no centro da Terra. 

Eu não sabia mais o que estava acontecendo ao meu redor. As contrações estavão tão intensas e frequentes que eu só conseguia sentir meu corpo e nada mais. A mente estava em outro lugar, estava lá onde aquelas ondas de dor se formavam, com as contrações que começam no pé da barriga e me abraçavam até às costas, arrastando minha consciência em seus picos. Eu estava na Partolândia.

Eu queria tentar o parto sem anestesia. A enfermeira me dizia que eu estava indo super bem, que estava fazendo excelente com a respiração durante as contrações e que tinha total condições de ter esse bebê sem anestesia. As palavras dela me encorajaram, mas eu queria muito que aquilo acabasse logo. Dizem que quando você acha que não aguenta mais e quer “desistir” é porque está bem perto. Então eu queria saber se estava mesmo bem perto, pedi pra checarem minha dilatação.

Eu não sabia, mas a enfermeira checava minha dilatação de hora em hora. Na última vez que ela havia checado estava de 6 pra 7 cm. Quando pedi que me checassem novamente elas não queriam fazer porque não havia dado uma hora ainda. Eu estava totalmente perdida no tempo, pra mim parecia que eu estava lá há horas, não entendia porque não queriam checar minha dilatação. Insisti pra que checassem e deu o menos de antes, de 6 pra 7 cm. "Ainda? Quero a epidural!" Na minha cabeça eu havia passado horas na dor e sem progresso, mas na verdade não tinha passado tanto tempo assim. Meu trabalho de parto até que estava evoluindo bem rápido pra uma parturiente de primeira viagem, mas lá na Partolândia, uma hora parece uma eternidade.

Aí veio o anestesista (um residente). Tive que ficar sentada quietinha durante as contrações enquanto ele furava minhas costas. “E se esse cara me fura no canto errado... vou ficar paraplégica?” Foram algumas furadas até ele achar o lugar certo. A cada minuto eu perguntava se o anestesista já havia terminado. Marido segurando de um lado, enfermeira do outro e umas furadas depois, ta aplicada a anestesia. Ufa! Ainda deixei escapar um "Até que fim!" Eu havia perdido a noção e falava o que viesse na cabeça. Coitado do anestesista que estava ali fazendo o papel de um anjo.

A anestesia retarda o trabalho de parto. Como minha bolsa havia rompido, quanto mais demorasse, maior o risco de infecções. E tome ocitocina no soro pra acelerar o processo. Ocitocina que eu não queria, assim como não queria aquele soro na minha veia. No meu plano de parto eu havia pedido para me manter hidratada através da ingestão de líquidos. Mas eu havia começado a bola de neve de intervenções quando pedi a anestesia. E cada intervenção tem seu risco. Pouco tempo depois entra de repente uma equipe de médicos no quarto, às pressas, me mandando mudar de posição, me virando para o outro lado. Eu e Alex assustados, sem saber o que havia de errado. Os batimentos cardíacos de Leah haviam caído (efeito da ocitocina). Mas bastou me reposicionar para normalizar. A ocitocina foi interrompida.     

Passado o susto, eu estava sem dor e sem poder sair da cama. Dormi. De repente acordo com a  equipe toda entrando no quarto. Médicos, enfermeiros, estagiários, faxineira, o entregador de pizza... Parecia ter mais gente alí do que realmente precisava.

Está na hora. Na hora de quê? De empurrar, o bebê vai nascer! Como assim vai nascer? Mas já? Eu estava lá deitada tranquila, tinha acabado de tirar uma soneca, tinha até esquecido que estava ali pra ter meu bebê e de repente entra um monte de gente porque chegou a hora. Não deu tempo nem para organizar as idéias, a enfermeira: “Ok, na próxima contração vou falar e você empurra com força tá?” Ahn? Empurrar? Força? Ai minha nossa, vai nascer! Uma emoção imensa me invadiu, um sentimento indescritível.

Eu havia pedido um espelho pra ver, mas só vi no começo, quando não tinha nada pra ver. Aquele monte de médicos presentes, devem ter movido o espelho que ficava no meio. Eu também me concentrei em empurrar e esqueci dele. Cada vez que empurrava eu pensava: “Será que vai ser agora?” Papai estava super animado e emocionado: “Tô vendo a cabeça!” E eu questionando as coisas importantes da vida: “Ela tem cabelo?”  

Depois de apenas 20 minutos empurrando, Leah nasceu. Olhei bem pra ela. Toda inchada, com o
rostinho rosa e as mãozinhas roxas, bochechuda, com um tiquinho de cabelo, toda perfeita. “É linda!” E caí pra trás pra descansar. Ela foi colocada em meus braços. Papai cortou o cordão umbilical. Impossível conter as lágrimas com a emoção de sermos privilegiados com um serzinho tão frágil, tão puro e tão belo, confiado aos nossos cuidados.


Papai ficou com ela o tempo todo enquanto faziam os procedimentos básicos e eu levava os pontos por uma pequena laceração interna. Ela voltou pra mim e mamou. Nos transferiram para outro quarto e finalmente descansamos os três. Filhota nos braços e marido ao lado, que delícia! Uma sensação de plenitude, de família completa.


Nascida às 02:05 am da sexta-feira, 02 de julho de 2010. Com 3.195 Kg e 46 cm. Pequenina, linda e super saudável. No dia seguinte já estávamos em casa para então iniciar nossa tão sonhada vida a três.

Leah veio ao mundo para encher nossas vidas ainda mais com amor, para tornar nossos dias mais felizes, para nos mostrar sentimentos que não conhecíamos, para nos ensinar coisas novas e para provar que o que nos faz viver é um coraçãozinho que bate fora do nosso corpo. 





Bem-vinda Leah, nós te amamos incondicionalmente!


10 comentários :

  1. Adorei o relato. Vou continuar lendo os outros posts. Mas adorei seu relato de parto. Queria muito que o meu tivesse sido normal, mas aqui no Brasil é realmente muito difícil conseguirmos. Eu lutei até o último dia, quando meu médico inventou um motivo ridículo para me colocar na mesa de cirurgia. Uma pena, queria muito ter sentido as contrações... Mas quem sabe um dia eu resolva ter meu segundo filho e passe por esse momento lindo que você passou! Sua filha é linda, e pode deixar que a partir de agora vou passar por aqui sempre, estou seguindo! (:
    Um beijão.

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  2. Oi Dayane, seja bem vinda a blogosfera e ao meu blog!!!
    Amo compartilhar e trocar experiências com outras mamães, e não se avexe não viu...rs
    pode aparecer sempre...apesar de ser blogueira "das antigas"rsrs eu amo quando vejo uma nova participante, mesmo que iniciando agora,pois um dia eu já fui assim!!
    Vou ler seu blog todinho para te conhecer melhor, mesmo que eu não passe aqui sempre,pois são muitos blogs para comentar, eu sempre leio os blogs viu e vou procurar vir sempre!
    Ah, sua caixinha de seguidores não tá aparecendo,mas vou colar seu link lá no meu!
    bjos

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  3. Oi Dayane,
    obrigada pela visita no meu cantinho!
    Que lindo o seu parto, e foi normal!!!! Mil parabéns! Eu esperei a gravidez toda por um PN, mas nas 38 semanas tive complicações uma linda cesárea salvou minha vida e do meu filho.
    Sua filha é linda!

    Beijos!!!

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  4. Voltei pra ler seu relato...que lindo!! Nossa e que tranquilidade, quando eu senti as primeiras contrações só não conseguia gritar de tanta dor, mas fiquei apavorada, e pior foi não ter dilatado...eu sofro até hoje lembrando,pois meu marido não pode estar presente,já que tive pelo SUS...eu quero muito realizar o sonho do parto normal,claro que com anestesia...rs
    Sua princesa Leah é muito linda...
    bjos

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  5. Dayane, menina, me deixou aqui com lágrimas nos olhos!
    Lindo, lindo, lindo seu relato!
    Bjos

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  6. Ai, que delícia esse momento do encontro, né?
    Emociona!
    Cheguei aqui pelo MMqD! e adorei seu relato!
    Também li sobre o 1o. aninho da bebê... Ai... eles crescem, não?
    Meu bebê tá com 8 meses, e eu já tô com saudade...
    :}
    Legal conhecer esse espaço!

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  7. Que lindo seu relato.
    A tal partolândia não é nada fácil, mas depois que a gente vê aquele bebezinho perfeitinho nos braços... tudo muda. A dor acaba e a gente só consegue admirar a beleza do nosso filhote, né?

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  8. Que lindo relato Dayane!!! Queria fazer parto normal mas todas as condições me levaram a fazer uma cesariana... Mas foi lindo também...olhar o pequeno pela primeira vez é algo emocionante. O próximo quem sabe venha de parto normal!!!!!!!!! Bjinhosss

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  9. Oi Dayane!

    Muito linda a história do seu parto! Me emocionei de verdade! Queria muito que o meu parto fosse normal, com anestesia ou sem (preferiria sem mas...), só queria que fosse normal. Mas não tive condições físicas e psicológicas pra suportar aquela dor. Quem sabe um post sobre isso tbm...rs

    Sobre a escolinha do meu filhote, tambem acho que nem deveríamos ter colocado, mas sabe como é né... a gente erra daqui, acerta dali e tenta e tenta... Estamos amadurecendo ainda como pais e acho q até estamos nos saindo bem...hehe

    beijinhos

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  10. Que relato lindo, Dayane! Meu parto também foi normal, também aclamei por anestesia... me ví em vários momentos do teu relato! Ainda me emociono quando leio o meu e o das outras mães... de onde tiramos tanta força, né?
    Beijo!

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