28 abril, 2013

O nascimento de Kylie

Não tenho como relatar meu segundo parto sem mencionar o primeiro. O parto de Leah eu queria o mais natural possível. Queria tentar um parto sem anestesia por motivos simples: toda intervenção tem seus riscos, seus prós e contras. Foi assim quando pedi a anestesia durante o parto. A anestesia veio acompanhada de pitocina e a pitocina diminuiu os batimentos cardíacos de Leah, por um breve período, nos dando um susto danado. Não me arrependo da anestesia, mas me arrependo de não ter questionado ou negado a pitocina, mesmo que eu já tivesse dito no meu plano de parto que não queria. A anestesia foi a desculpa pro uso do hormônio artifical, já que a anestesia retarda o trabalho de parto e quanto mais demorasse mais chances eu tinha de infecção por estar com a bolsa rompida. Por isso a pitocina pra acelerar o processo. É assim, tudo vai acontecendo em cadeia, uma intervenção leva a outra. Eu tinha grandes expectativas pro parto e me frustei por não ter tido a liberdade que eu gostaria durante o trabalho de parto. Eu não esperava ficar conectada à monitores o tempo todo, que eu iria ao banheiro arrastando um monte de fios comigo (e eu fui muito ao banheiro durante o trabalho de parto de Leah) e que a enfermeira iria entrar no quarto toda vez que eu demorasse pra me reconectar às máquinas. Apesar dos incômodos e frustrações, foi uma experiência incrível. O trabalho de parto com o apoio do marido a cada contração, as dores que me puxavam pra dentro de mim, como se me transportasse para outro lugar. O expulsivo. Ansiedade, emoção, euforia. Difícil descrever. Saí do hospital já ansiosa pelo próximo parto, já com vontade de viver tudo de novo, de parir de novo.

Pro parto de Kylie eu não sabia se tentaria novamente sem anestesia ou se, já conhecendo a dor, pediria logo pela epidural. No fundo eu sabia que não iria passar de uma tentativa e acabaria pedindo a anestesia mesmo, então fiquei no "vamos ver até onde eu aguento dessa vez". Mas  estava bem decidida quanto a um parto sem pitocina, sem rompimento das membranas artificialmente e sem episiotomia. Eu já sabia o que esperar quanto aos procedimentos do hospital: acesso venoso, monitoramento das contrações, dos batimentos cardíacos fetais e da minha pressão. Eu imaginava que já saber como seria no hospital, já saber o que esperar, ia ajudar pra que eu tivesse uma experiência melhor e sem frustrações. E eu estava certa, não houve frustrações, não houve incômodo. Na verdade o parto foi muito além das minhas expectativas.

***

40 semanas e 1 dia de getação. Eu tinha consulta com a midwife, Alex não poderia me acompanhar, eu ia sozinha com Leah. Levantamos cedo, levei Alex pro trabalho pra eu ficar com o carro. Quando cheguei em casa fui ao banheiro e vi um pouquinho de sangue. É estranho falar isso, mas eu fiquei euforica. Havia dias que eu esperava por um sinalzinho qualquer de trabalho de parto. Havia dias que sempre que ia ao banheiro eu procurava por alguma coisa. Na mente eu gritava: "é sangue! é sangue!" com a certeza que o trabalho de parto ia engrenar e que provavelmente no dia seguinte minha bebê nasceria. Estava começando do mesmo jeito que foi com Leah. Quis avisar ao marido, afinal ele esperava ansiosamente pelo momento, chegava em casa todos dias perguntando se eu não estava sentindo alguma coisa. Mas na verdade ele não estava trabalhando, estava (por interesse na profissão) acompanhando o dia de trabalho de um policial e eu não queria "estragar" aquele dia importante pra ele. Eu sabia que ele iria ficar ansioso e preocupado, ligando o tempo todo pra saber como eu estava e  querendo me levar pro hospital. Então guardei a euforia só comigo mesma.

Durante a manhã, entre uma brincadeira e outra com Leah, arrumei algumas coisas em preparação ao que estava pra acontecer. Nem sei dizer quando exatamente as contrações começaram, acho que da metade pro final da manhã. Elas começaram a ficar mais perceptíveis depois do almoço e aumentaram em intensidade rapidamente. Às hr 3:00 pm eu estava colocando Leah no carro para irmos à consulta quando senti uma contração mais dolorida. "Se estou mesmo em começo de trabalho de parto, pra quê estou  indo pra essa consulta?" Pelo menos eu estava indo pro hospital, qualquer coisa eu ficava por lá mesmo. Melhor que ficar ansiosa esperando em casa. Fizemos o acompanhamento básico: pressão boa, 11 kg a mais, bebê bem e posicionada, tudo ok. Falei pra Judi, a midwife, que eu provavelmente havia perdido o tampão pela manhã e que estava em começo de trabalho de parto, com contrações razoáveis. Ela perguntou sobre os intervalos das contrações e se eu queria checar minha dilatação. Eu ainda nem havia parado pra contar o tempo entre as contrações. Bateu a curiosidade pra saber a quanto andava a coisa, mas não quis checar dilatação já que provavelmente em algumas horas eu estaria dando entrada no hospital mesmo. Judi é minha midwife preferida, com quem tive a maioria das consultas e eu iria amar ter meu parto com ela. Mas era terça-feira e o plantão dela é nas quintas. Ela olhou pra mim qual midwife estaria de plantão naquela noite. Era uma que eu não havia conhecido ainda, a Marry.

Fui buscar Alex. Dirigir quando se está em trabalho de parto pode não ser uma idéia muito boa. Durante todo o caminho pra casa ouvi ele contar com entusiasmo sobre seu dia, sobre os casos que  havia acompanhado, ouvi os detalhes sobre o homem que ele encontrou morto em sua casa. Enquanto ouvia sobre morte, eu pensava em vida. Na vida que havia dentro de mim querendo sair. Logo logo teríamos mais uma vida em nossas vidas. Só quando chegamos em casa contei que estava em TP. Ele ficou tão animado que não sabia o que fazer. Pedi pra ele lavar os pratos que estavam na pia enquanto eu tomava um banho, arrumava a bolsa de Leah e botava as coisas que estavam faltando na minha. As contrações estavam mais próximas e doloridas. Começamos a marcar: 5 em 5 minutos. Eram precedidas por uma onda de calor, começavam nas costas e se espalhavam pra frente como cólica. Em pouco tempo eu não conseguia mais me mexer durante as contrações, tinha que dar uma pausa no que estava fazendo até passar. Ligamos pros pais de Alex e meu sogro veio pegar Leah.

Chegamos no hospital era por volta de hr 6:30 pm. Fui encaminhada pra uma salinha pra ser avaliada. Onde verificam se a grávida está mesmo em TP, e decidem se fica ou se volta pra casa. Havia umas outras 3 grávidas dando entrada no mesmo momento que eu, tive que esperar uns 15 minutos para a midwife chegar. Longos minutos de espera, eu estava tensa, queria ir logo pro quarto onde teria a bebê, já queria me livrar das dores. Marry, a midwife, chegou. Uma senhora de meia idade e muito simpática. Pediu que eu deitasse pra colocar o monitor e verificar as contrações. Quando dizem que a posição deitada é a pior pra se ter contração, é pura verdade. Foi ali deitada que eu senti a pior contração de todas. Pareceu que a  intensidade da dor havia triplicado. Pra ter uma noção: deitada minha contração chegou a 90 e achei que ia me acabar de dor. Enquanto depois, de pé, suportei muito mais fácil contrações de 120 pra lá. Confirmado o TP, Marry verificou a dilatação. "Parabéns. 6 cm de dilatação e colo do útero 100% afinado". A frase pareceu que saiu acompanhada com música, delícia de se ouvir. Eu já calculando o tempo que leva pro anestesista chegar, disse logo que já estava pronta pra epidural. "Mané esperar pra ver até onde eu aguento. Eu quero é acabar logo com essas dores".

No quarto conheci a enfermeira-assistente que iria me acompanhar, Karen. Outro anjo. Eu havia sido testada positiva pro GBS (tipo comum de bactéria que vive no intestino e pode ser encontrada na vagina podendo passar pro bebê durante o parto. É nociva à mulher, mas pode ser letal ao bebê). Daí eu precisava de antibiótico. Como eu já estava em TP avançado foi uma correria pra que eu recebesse logo  o antibiótico (que leva algumas horas pra fazer efeito). O anestesista também chegou logo. A primeira meia hora no quarto foi agitada mas eu bem que gostei porque fizeram tudo rapidinho. Depois de estar recebendo o antibiótico (pela veia, como um soro) e da anestesia aplicada, tudo se acalmou. Eu relaxei, aliviada das dores. Marry me disse que ela não checava dilatação a menos que houvesse real necessidade ou se eu pedisse. Linda. Agora era só esperar e eu devia chamá-la quando sentisse uma pressão lá em baixo.

Estávamos só eu e Alex no quarto, esperando a hora da nossa filha nascer. Ele colocou um filme para assistirmos, mas eu só consegui mesmo assistir o relógio. O tempo passava tão devagar. "Será que ela  nasce antes de meia-noite?" Em algum momento eu achei que pudesse estar sentindo a pressão, mas não tinha certeza. Marry disse pra não me preocupar, que eu iria saber quando fosse, que não ia acontecer dela sair sem eu perceber. Hehe Eu conseguia sentir um pouco as pernas e mexer os pés. "Ta certo isso?" Medo de que a anestesia não estivesse fazendo efeito. Mas foi como Karen descreveu depois: a anestesia perfeita. A azia não me abandonou nem na hora do parto. Tomei o remédio que eu havia tomado durante toda a gravidez, pastilhas de cálcio, mas pouco tempo depois a azia estava me perturbando de novo. Marry me ofereceu então um remédio mais forte, de gosto horrível. Voltamos à espera. Senti um enjôo. Olhei pra um lado e havia uma mesa com uma jarra de água e outras coisas. Olhei pro outro lado e estava o marido sentado. "Amor, se eu quiser vomitar... vomito onde?" Aqui - ele falou segurando a jarra de água na minha frente. Chamamos a enfermeira que correu pra pegar um bacia no armário, mas não deu tempo, foi na jarra mesmo.  

Poucos minutos antes de meia-noite Karen veio pra esvaziar minha bexiga. Disse que Marry estava vindo de meia-noite ver como eu estava. Enjoei de novo, peguei a bacia e blaaaaaah. Na mesma hora que vomitei senti um ploc. Assim mesmo: PLOC! Minha bolsa estourou. Marry chegou logo depois, checou minha dilatação: 10 cm. Estava pronta.  

Empurrei, e tanto o marido quanto a midwife falaram: "nossa, quanto cabelo!" Botei a mão pra sentir a cabeça dela. Trouxeram um espelho e eu vi, só tinha cabelo pra fora. Karen pediu pra que eu esperasse enquanto ela arrumava às pressas uma mesa com instrumentos. "Eu sei que não vai precisar de nada disso, mas eu preciso fazer". Era só eu, marido e as duas enfermeiras no quarto. Ambiente tranquilo e aconchegante, sem alvoroço de médicos e suas equipes. Quando Karen deu o ok empurrei de novo e senti, sem dor, a cabeça dela saindo. Esperei ela girar a cabeça, fiz mais uma força e o resto do corpo deslizou. Veio pros meus braços imediatamente, contato pele-a-pele. Foi incrível ver tudo pelo espelho.Já assisiti muitos videos de partos por aí, mas nada se compara a assisitir o seu próprio. Eu ria e chorava de emoçãoa enquanto segurava o corpinho escorregadio da minha filha, todo sujo de vermix. Olhei-a da cabeça aos pés, segurei o cordão umbilical. Pelo espelho vi nós duas ali ainda conectadas, ela como uma extensão minha. Vi o cordão azulado perder a cor e ficar branquinho, parando de pulsar. O papai cortou o cordão. Senti quando, pouco tempo depois, saiu a minha placenta. Pedi pra ver. "Uma linda e saudável placenta", segundo a enfermeira-obstetra. Períneo íntegro, sem nenhuma laceração.

Kylie foi como um passarinho bicando meu seio até encontrar o bico e sugar com força. E ficou ali em meu seio por mais de duas horas. Sim, somente 2 horas depois, quando eu já estava pronta pra ir pro quarto de recuperação, que Kylie foi pesada e medida. 3.460 Kg e 52 cm.

Sem nem estar esperando por isso, eu tive o meu parto ideal. O parto perfeito pra mim. Não consigo descrever como foi incrível ver, sentir, tocar. O parto de Leah foi sim incrível, mas o de Kylie foi muito mais. Foi mais humano, foi mais íntimo, foi mais meu. Foi rápido, foi divertido, foi emocionante. Foi lindo! 


23 abril, 2013

Bebê prodígio

Gente, desculpa a demora pra atualizar o blog. É tanta coisa pra fazer com o pouco tempo que sobra. Mas o relato de parto ta quase terminado, prometo que sai no próximo post. 

As coisas por aqui estão indo bem. Kylie parou com o chororô. Percebemos que ela ficava incomodada depois das mamadas, golfava muito e vomitou algumas vezes. Pensei que ela pudesse ter refluxo, mas não preocupei muito porque é visível que ela ta ganhando peso. Como só iríamos ver o pediatra em mais um mês (aqui o acompanhamento com pediatra é a cada dois meses) fui ver uma consultante de lactação. O peso dela está ótimo, apesar de todo o golfo e vomito, ela ainda ganhou bastante peso, então não temos com o que se preocupar. Acontece que ela engole muito ar quando ta mamando. Eu faço de tudo pra ela pegar o peito direitinho e o fato dos peitos não estarem machucados é um ótimo sinal, mas Kylie mexe muito, empurra a cabeça pra trás quando ta mamando, o lábio de baixo fica enrolado pra dentro, é difícil ela ficar com a boquinha de peixe. Mesmo assim ela se alimenta bem e o problema pode ser também que ela come demais. Estou prestando mais atenção quando ela pega o peito pra ver se não engole tanto ar e se ela fica feliz depois de mamar um peito, não ofereço mais o outro pra que ela não coma demais. Agora ela anda mais calma, não chora muito. Na verdade ela sorri. Muito. É uma delícia de simpática. Já conseguimos tirar algumas risadinhas. Ela ainda ta descobrindo a voz e como fazer sons, as risadas são pequenas mas grandes o suficiente pra deixar o pai e a mãe babando horrores. 

Adicionei no post passado, que eu havia esquecido, que Kylie "rola". Ela levanta tanto a cabeça quando ta deitada de bruços que acaba caindo pro lado. Agora me diz se vocês já viram um bebê de um mês "rolando" assim? Favor dizer que não. Eu sei que ela não faz de propósito, que é só porque não consegue equilibrar o peso da cabeça. Mesmo assim acho o máximo, acho ela um prodígio. =)

13 abril, 2013

1 mês de Kylie


Faz um mês que ela chegou. Parece que faz mais. Parece que ela sempre esteve aqui, que sempre fez parte dessa família. É muito amada. Tanto amor que não cabe em mim. Cabelo arrepiado, olhar vivo e curioso, verruginha na orelha direita, cor morena, amo cada detalhe nela. Carrego comigo a vontade de vê-la crescer e se desenvolver, de vê-la brincando com a irmã, e também a vontade de que continue pequenina, gostosinha e dependente de mim por muito mais tempo.

Papai Alex tirou férias e ficou as duas primeiras semanas em casa com a gente. Foram ótimos dias com nossa nova família de 4. A presença e ajuda dele é fundamental nesses primeiros dias. É como se a vida lá fora parasse pra gente vivenciar ao máximo essa fase com um novo bebê. É apoio e trabalho mútuo. Se eu não dormisse bem durante a noite, cedo ele se levantava com a meninas e eu dormia pela manhã. Dava pra manter a casa e eu mesma em ordem. Mesmo que eu não conseguisse fazer tudo que havia planejado pro dia, pelo menos eu fazia o que dava com tranquilidade. Eu estava toda destreinada com uma bebê tão pequena. Ele que trocava todas as fraldas. Ele ajudava pra que Kylie pegasse o peito corretamente. Pude levar Leah pra  ginástica e pra contação de histórias na biblioteca enquanto a Kylie dormia o tempo todo nos braços do pai em casa. Um dia deixei as meninas dormindo e saí sozinha. Pode parecer bobagem, mas quando se tem uma filha de 2 anos e outra de poucos dias em casa, uma saídinha sozinha faz um bem danado. Foram dias gostosos, como férias.

Mas papai voltou a trabalhar, eu tive que me virar sozinha. E aí a realidade de mãe de duas me acordou com uma bela tapa na cara. Kylie é definitivamente um bebê diferente do bebê que Leah foi. Tão logo papai voltou ao trabalho, Kylie resolveu mostrar a força que tem nos pulmões. Diferente da irmã que praticamente não chorava, Kylie chora. E não é aquele choro de bebezinho "uéuéuéuéuéuéué" não, o choro dela é do tipo "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaestãomematando" ou "aaaaaaaaaaaaaaaaaaavouestourarostímpanosdamamãe". Diferente da irmã que dormia fácil, Kylie às vezes dá um baile pra dormir. Mas estamos nos adaptando e a cada dia as coisas ficam melhores. Até já criei coragem pra sair sozinha com as duas. É estressante enquanto arrumo todo mundo pra sair, mas quando saímos Kylie dorme o tempo todo, Leah se diverte e eu relaxo. Semelhante à irmã, Kylie também tem muita força e bom controle do pescoço. Ela gosta de deixar a cabeça um pouquinho jogada pra trás, em posição bem relaxada. Quando botamos ela deitada de bruços, ela levanta a cabeça, bota força nos braços e se empurra tanto que acaba caindo pro lado. Bebê prodígio, rolando antes de 1 mês. hehehe Também é uma bebê muito simpática, dona do sorriso banguela mais lindo desse mundo.